ESPÍRITA OU ESPIRITÓLICO?

O Espiritismo no seu início, no Sex. XIX, não era visto nem possuía simpatizantes pelo fato de pensarem tratar-se de uma nova religião, pelo contrário, as pessoas se dirigiam até os locais onde eram realizadas reuniões espíritas para se divertirem com as coisas que ali aconteciam, pois faziam perguntas vulgares e obtinham respostas acerca de coisas relacionadas à vida pessoal de cada um, depois que o Sr. Hippolyte Léon Denizard Rivail tomou conhecimento de tais fatos, à época conhecido como o fenômeno das “mesas girantes“ e iniciou uma profunda pesquisa de cunho científico, o Espiritismo foi tomando forma de Ciência e doutrina filosófica e só mais tarde, devido as perseguições da Igreja Católica, foi apresentado pelos seus perseguidores como religião, mas o próprio Allan Kardec afirmou ter sido um erro:

“O Espiritismo era apenas uma simples doutrina filosófica; foi a Igreja quem lhe deu maiores proporções, apresentando-o como inimigo formidável; foi ela, enfim, quem o proclamou nova religião. Foi um passo errado, mas a paixão não raciocina melhor”. Allan Kardec, O Que é o Espiritismo, Cap. I, Terceiro Diálogo – O Padre, pag. 71, IDE.

No Preâmbulo do Livro O que é o Espiritismo, Kardec responde a pergunta que é o título do livro:

Para responder, desde já e sumariamente, à pergunta formulada no título deste opúsculo, diremos que:

O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que dimanam dessas mesmas relações.

 Podemos defini-lo assim:

O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal.

Ainda no Diálogo com o Padre, Kardec responde a pergunta sobre o dogma com outra pergunta, na qual ele faz uma afirmação:

A. K. – O Espiritismo é, antes de tudo, uma ciência, não cogita de questões dogmáticas. Esta ciência tem consequências morais como todas as ciências filosóficas; essas consequências são boas ou más?

Pode-se julgá-las pelos princípios gerais que acabo de expor.

Algumas pessoas se iludem sobre o verdadeiro caráter do Espiritismo

 … Melhor observado depois que se vulgarizou, o Espiritismo vem derramar luz sobre grande número de questões, até hoje insolúveis ou mal compreendidas. Seu verdadeiro caráter é, pois, o de uma ciência, e não de uma religião; e a prova disso é que ele conta entre os seus aderentes homens de todas as crenças, que por esse fato não renunciaram às suas convicções: católicos fervorosos que não deixam de praticar todos os deveres do seu culto, quando a Igreja os não repele; protestantes de todas as seitas, israelitas, muçulmanos e mesmo budistas e bramanistas. Pág. 74, O Que é o espiritismo, IDE.

Aqui começa o nosso estudo, logo após escrever O Livro dos Espíritos em 1857, Kardec lança a Revista espírita em 1858 para logo em seguida, em 1859 escrever o livro O Que é o Espiritismo, pela leitura acima se percebe que toda inclinação das pesquisas e estudo de Kardec tinha um cunho científico e filosófico, o caráter religioso surgiu depois, após os embates e perseguições do sistema religioso dominante, vejamos as palavras de Kardec abaixo:

  1. “Algumas pessoas se iludem sobre o verdadeiro caráter do Espiritismo”.
  2. “Seu verdadeiro caráter é, pois, o de uma ciência, e não de uma religião”.
  3. “O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica”.
  4. “O Espiritismo é, antes de tudo, uma ciência”.
  5. “O Espiritismo era apenas uma simples doutrina filosófica; foi a Igreja quem lhe deu maiores proporções, apresentando-o como inimigo formidável; foi ela, (Igreja católica) enfim, quem o proclamou nova religião”. Grifo meu.

E Kardec diz mais, ele afirma que a prova de que o caráter do Espiritismo é de uma ciência e não é de uma religião é o fato de: ele conta entre os seus aderentes homens de todas as crenças, que por esse fato não renunciaram às suas convicções: católicos fervorosos que não deixam de praticar todos os deveres do seu culto”.

Kardec não imaginava àquela época, que mais tarde esse fato poderia trazer algumas consequências e que isso poderia causar algum tipo de confusão, pois enquanto os adeptos do catolicismo, protestantes de todas as seitas, israelitas, muçulmanos e mesmo budistas e bramanistas estavam aderindo à nova filosofia e exercendo apenas o papel de participantes passivos, tudo bem, o problema viria quando esses novos adeptos, que sem se desvincularem de suas crenças anteriores, passassem a participar da expansão da nova doutrina e começassem a mesclar os seus costumes da antiga crença à Doutrina dada pelos Espíritos à Kardec, Divaldo Franco fala no vídeo acima que “não podemos fazer um espiritismo “a la igreja” católica”, segundo ele, seria uma deturpação de significado.

Embora os Espíritos tenham se revelado a Kardec na França, foi no Brasil que ele teve maior aceitação e se desenvolveu até chegar ao modelo que temos hoje, foi na cidade de Salvador, na Bahia em 1865 que se iniciaram os primeiros trabalhos espíritas em solo brasileiro, em 1877 foram fundadas as primeiras comunidades espíritas, Congregação Anjo Ismael, Grupo Espírita Caridade e Grupo Espírita Fraternidade, em 1884 foi fundada a Federação Espírita Brasileira por Augusto Elias da Silva com o objetivo de dar um caráter unificador à doutrina.

Ocorre que o Brasil sempre foi um país de maioria católica e o sincretismo religioso sempre foi algo muito natural, principalmente na Bahia, onde é bastante comum o católico domingo pela manhã ir para missa e durante a semana à noite visitar algum terreiro ou centros de Umbanda, por outro lado, os protestantes, que também se auto intitulam de evangélicos, por sua vez, se mantêm fieis a sua congregação, se permitindo alguns apenas visitar outras igrejas evangélicas.

Os adeptos do Espiritismo no Brasil, em sua grande maioria, são oriundos de alguma dessas religiões e como o espiritismo não é uma religião de proibições e dogmas, muitos continuam praticando o sincretismo sem nenhum problema, o problema começa quando esses irmãos que não assimilaram por completo a Codificação deixada pelos Espíritos e entregue a Kardec, começam a exercer atividades na Casa Espírita e misturar seus hábitos e costumes com aquilo que está na Codificação, o resultado disso é que hoje temos diversos Centros Espíritas completamente desfigurados devido as misturas doutrinárias, recentemente um Espírito, dentro de um Centro Espírita, me aconselhou a encomendar uma missa para um ente que havia desencarnado.

Outro fato bastante comum é o culto, reverência e adoração à Maria dentro dos Centros Espíritas, é quase unânime, já visitei algumas Casas, e para mim, que já fui evangélico, (membro de igreja protestante) foi bastante constrangedor está em um grupo rezando uma Ave Maria. É muito comum em alguns Centros um irmão se despedir do outro desejando “Que a mãe Maria te guarde”, como será que ele reagiria se eu respondesse: que o pai José te abençoe? Pois se Maria sendo mãe de Jesus é quase uma divindade, por que José sendo o pai também não seria?

Bastante incomodado com essa situação fui para a Bíblia pesquisar o tratamento que os discípulos de Jesus davam à Maria e pude observar que em nada ela era tratada de forma especial e até mesmo sua forma de viver era comum, como as das mulheres religiosas de sua época, nenhuma passagem da bíblia nos mostra Maria como um Espírito evoluído ou detentor de alguma divindade especial, pelo contrário, e até o Evangelho Segundo o Espiritismo no Cap. XIV, 7 ao explicar a passagem que está em Marcos, 3:20, 21, 31 a 35 e Mateus, 12:46 a 50 nos dá uma ideia da condição espiritual de Maria, vejamos abaixo:

Entretanto, tendo vindo sua mãe e seus irmãos e conservando-se do lado de fora, mandaram chamá-lo. Ora, o povo se assentara em torno dele e lhe disseram: “Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e te chamam.” — Ele lhes respondeu: “Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?” — E, perpassando o olhar pelos que estavam assentados ao seu derredor, disse: “Eis aqui minha mãe e meus irmãos; pois, todo aquele que faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.” (Marcos, 3:20, 21, 31 a 35; Mateus, 12:46 a 50.)

Quanto à sua mãe, ninguém ousaria contestar a ternura que lhe dedicava.

Deve-se, entretanto, convir igualmente em que também ela não fazia ideia muito exata da missão do filho, pois não se vê que lhe tenha seguido os ensinos, nem dado testemunho dele, como fez João Batista. O que nela predominava era a solicitude maternal. ESE XIV, 7.

Ora, se Maria fosse realmente um Espírito dotado da divindade e pureza que nossos irmãos católicos e espiritólicos tentam passar, teria se comportado de forma tão alheia ao Ministério do Cristo?

Ainda no Cap. XIV item 8 do Evangelho Segundo o Espiritismo, nos é ensinado que os laços de sangue não criam forçosamente os liames entre os Espíritos e que o parentesco terreno entre os seres humanos  não são os verdadeiros laços de família e o que mantêm um Espirito ligado a outro é a simpatia e comunhão de ideias, que esses fatores permanecem antes, durante e depois de suas encarnações, esta é a família espiritual, que permanece após a morte do corpo.

Quanto a família terrena, o Evangelho Segundo o Espiritismo nos ensina que são: “frágeis como a matéria, se extinguem com o tempo e muitas vezes se dissolvem moralmente, já na existência atual”.ESE Cap XIV, 8.

Vejamos o texto abaixo:

A parentela corporal e a parentela espiritual

  1. Os laços do sangue não criam forçosamente os liames entre os Espíritos. O corpo procede do corpo, mas o Espírito não procede do Espírito, porquanto o Espírito já existia antes da formação do corpo. Não é o pai quem cria o Espírito de seu filho; ele mais não faz do que lhe fornecer o invólucro corpóreo, cumprindo-lhe, no entanto, auxiliar o desenvolvimento intelectual e moral do filho, para fazê-lo progredir.
    (…)
    Não são os da consanguinidade os verdadeiros laços de família, e sim os da simpatia e da comunhão de ideias, os quais prendem os Espíritos antes, durante e depois de suas encarnações. ESSE XIV, 8.

Há, pois, duas espécies de famílias: as famílias pelos laços espirituais e as famílias pelos laços corporais. Duráveis, as primeiras se fortalecem pela purificação e se perpetuam no mundo dos Espíritos, através das várias migrações da alma; as segundas, frágeis como a matéria, se extinguem com o tempo e muitas vezes se dissolvem moralmente, já na existência atual. Foi o que Jesus quis tornar compreensível, dizendo de seus discípulos: Aqui estão minha mãe e meus irmãos, isto é, minha família pelos laços do Espírito, pois todo aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus é meu irmão, minha irmã e minha mãe. ESSE XIV, 8

Ora, se o Evangelho nos ensina categoricamente que a família corporal, consanguínea “se extinguem com o tempo”, por que insistir na ideia de que Jesus tem uma mãe e que esta também é nossa mãe e nos protege? Esses ensinamentos não encontram respaldo na Codificação Espírita e nem mesmo na bíblia dos evangélicos, vejamos como Jesus se referia a sua mãe no período em que esteve encarnado:

Ao regressar de Jerusalém, José e Maria perceberam que seu filho Jesus, até então com 12 anos de idade, não havia voltado com eles, então voltaram para busca-lo e o encontraram no templo argumentando com os doutores da Lei…

“E quando o viram, maravilharam-se, e disse-lhe sua mãe: Filho, por que fizeste assim para conosco? Eis que teu pai e eu ansiosos te procurávamos”.

E ele lhes disse: Por que é que me procuráveis? Não sabeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai?

E eles não compreenderam as palavras que lhes dizia. Lucas 2:48-50.

Observe que Jesus naquele momento ignorou completamente a presença de José como seu pai terreno e manteve-se focado na Sua Missão e nem Maria nem José entenderam por que ele falava daquela forma.

No primeiro “milagre” que Jesus realizou, ele não permitiu a participação de Maria, quando ela o procura para informar sobre a preocupação dos noivos sobre a falta de vinho ele lhes responde: Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora”.

E, ao terceiro dia, fizeram-se umas bodas em Caná da Galiléia; e estava ali a mãe de Jesus.

E foi também convidado Jesus e os seus discípulos para as bodas.
E, faltando vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Não têm vinho.
Disse-lhe Jesus: Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora.
Sua mãe disse aos serventes: Fazei tudo quanto ele vos disser. João 2:1-5.

No livro de Lucas, no capítulo 11, após Jesus ensinar sobre a atuação dos obsessores na vida dos homens…

…Uma mulher dentre a multidão, levantando a voz, lhe disse: Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os peitos em que mamaste.

Mas ele disse: Antes bem aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a guardamLucas 11:27,28.

Embora em momento algum Jesus tenha tratado mal a sua mãe ou a desprezado, pois a bíblia diz que ele se sujeitava aos pais segundo a carne, Lucas 2:51, em momento algum o vemos chamando-a de mãe, toda vez que as Escrituras relatam ele se referindo a Maria, está chamando-a de mulher, no seu ultimo dia encarnado, já pendurado ao madeiro e próximo o horário de sua morte, ele olha para Maria e diz: “Mulher, eis aí o teu filho”, Depois disse ao discípulo: “Eis aí tua mãe”. João 19:26-27.

Não resta dúvida meus irmãos que o próprio Jesus cuidou para que não houvesse confusão quanto aos laços que o ligavam a mulher de cujo ventre saíra, aquela família terrena se extinguiu, pois já havia cumprido o propósito para o qual havia sido instituída, quere perpetuar o parentesco do Mestre ao laço carnal de Maria vai de encontro a tudo que nos ensina a Doutrina Espírita e que já mostramos acima, algum espírita já se perguntou por que razão em toda a Codificação, que foi ditada por diversos Espíritos, não encontramos nenhuma citação ou colaboração do Espírito de Maria? Talvez você me responda, vários Espíritos deram comunicação e não se identificaram, eu te pergunto, se Maria contribuiu para a Codificação, por que ela não quis se identificar?

Todos os indícios apontam que, nem Jesus, nem Maria queriam que houvesse nenhum tipo de idolatria, veneração ou coisa parecida em relação a ela, é bem provável que após 21 séculos o Espírito da irmã Maria, isso mesmo, Maria é nossa irmã, não nossa mãe, já tenha evoluído bastante e se tornado um Espírito da Segunda Ordem entre a Segunda e a Quinta Classe, e mesmo assim, jamais ocupará o lugar do Cristo no planeta terra e muito menos ser sua eterna mãe.

No item 107 de O Livro dos Espíritos temos as características dos Espíritos pertencentes à Segunda Ordem na hierarquia Espírita e lá aprendemos que eles…

“Como Espíritos, suscitam bons pensamentos, desviam os homens da senda do mal, protegem na vida os que se lhes mostram dignos de proteção e neutralizam a influência dos Espíritos imperfeitos sobre aqueles a quem não é grato sofrê-la”.

A esta ordem pertencem os Espíritos designados, nas crenças vulgares, pelos nomes de bons gênios, gênios protetores, Espíritos do bem. Em épocas de superstições e de ignorância, eles hão sido elevados à categoria de divindades benfazejas.

Entenda o que os Espíritos estão dizendo, EM ÉPOCA DE SUPERSTIÇÕES E DE IGNORÂNCIA, muitos desses Espíritos que já habitaram a terra e evoluíram a essa Ordem na hierarquia espírita, foram elevados PELAS CRENÇAS VULGARES à categoria de divindades, de pequenos deuses entre os homens e é justamente isso que a Doutrina Espírita vem por termo, pois esta doutrina nos esclarece à respeito de quem são os Espíritos, de onde vem e para onde vão, a Doutrina Espírita nos esclarece que só existe Um Único Deus Criador e Pai de todos os Espíritos, Maria, Emmanuel, André Luiz, Joanna De Angelis, Bezerra de Menezes, Fénelon, São Luís, François-Nicolas-Madeleine, Lázaro e muitos outros trabalhadores e cooperadores com o Cristo, são nosso irmãos queridos e amados que se propuseram ajudar a alcançamos a perfeição, até sermos como Aquele que nos foi dado como exemplo pelo Pai, o Cristo de Deus, Jesus.

A doutrina Espírita nos esclareceu, porque continuarmos presos à crendices populares?

Se posso ser Espírita, por que ser “espiritélico” ou “espiritólico”?

A Doutrina Espírita tem a missão sagrada de reviver o Cristianismo puro.  (O Livro dos Espíritos comentado pelo Espírito Miramez, Cap. 32.)

Que a Paz do nosso Senhor Jesus Cristo seja com o nosso coração hoje e sempre.

Autor:
Washington Pêpe
Advogado
Ex-pastor Evangélico e trabalhador da Casa Espírita.

 

 

 

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